O Estado e o Cinema

Em que aspetos faz sentido o Estado apoiar o cinema 


1 Uma breve História sobre a “7ª Arte”

O cinema corresponde a uma arte surgida nos fins do século XIX (1895) com os irmãos Lumière, através da mostra de uma gravação no Grand Café em Paris. Esta arte caracteriza-se pelo movimento de imagem que através de camaras cria uma história, uma arte. Deste ponto demarca-se a sua criação em França e a sua expansão pela Europa e Estados Unidos através de cinegrafistas enviados pelos irmãos Lumière.

A arte cinematográfica, também chamada de “7ª arte”, teve várias etapas de crescimento acompanhadas pelo progresso tecnológico na indústria. Inicialmente o esplendor da criação cinematográfica era detido por França e Itália, mas com a I Guerra Mundial a indústria europeia foi arrasada e os EUA tomaram controlo da arte. Neste período dos anos 10 e 20 o cinema era a preto e branco e mudo como vemos, por exemplo com os filmes de Charlie Chaplin, onde as falas eram escritas em passagens da pelicula. Ainda nesta altura veio a ideia de dar cor à arte tornando a mais realista, mas como não havia tecnologia de captar a cor pelas camaras a equipa técnica pintava as peliculas à mão, esta técnica encontra-se por exemplo no filme “le voyage dan la Lune” de Mellie, um dos principias precursores do cinema de ficção.
A introdução do som foi conseguida totalmente no ano de 1928 por Warner no filme “The lights of New York”, mas atingiu a sua máxima concretização nos anos 30.

É nos anos 40 que se demonstra um claro interesse por parte dos Estados na arte do cinema derivado da II Guerra Mundial, onde se via um claro apelo patriótico nos filmes dos respetivos países, pela sua influência na sociedade civil. Contudo, apesar da influência direta dos Estados na produção cinematográfica, certos realizadores começaram a introduzir a sua ideologia nos filmes, como acontece com “Mission to Moscow” um filme que à luz filosófica americana era como que uma afirmação pró-soviética por parte do realizador o que implicou a criação de uma lista negra por parte do Estado estadunidense até aos anos 50 onde alguns atores, diretores e argumentistas chegaram mesmo a cumprir pena por traição.

Nos anos 60, Hollywood perde força para o cinema europeu e dá-se um período de proliferação de cinema independente, cinema feito com baixos custos por produtoras independentes sem a direção dos grandes estúdios hollywoodescos.

Na década de 70 a proliferação de filmes cresce exponencialmente sendo feitas longas-metragens que ficaram para a história pelo seu enredo e qualidade cinematográfica, do quais se destacam o “The Godfather”, “O exorcista”, “Laranja mecânica” e “Stalker”.

Nos anos 80 a produção cinematográfica adota como temática principal, a violência, retratada por exemplo nas produções de Martin Scorsese nomeadamente em “Touro Indomável”. É nesta década que a conjetura da produção de metragens alcança o mundo ganhando filmes estrangeiros o emblemático Óscar como em “La História Oficial”, produção argentina, e surge também o tão galardoado realizador Steven Spielberg.

Na década seguinte as temáticas preponderantes são a cultura “pop”, o “clássico” e a mistura destes criando uma diversidade enorme de longas-metragens. É vista a crescente importância do cinema brasileiro, onde se destaca o filme “central Brasil” que contou com o premio de melhor filme do festival de Berlim, o aclamado “Goldener Bar”, e um “Globo de Ouro”.

Com a entrada do novo milénio, a critica especulava uma decadência desta arte, mas logo se viu que estava errada, mas foi adotada uma postura diferente. Neste período próximo ao contemporâneo, foi adotada em força a temática da fantasia e de ficção científica “sci-fi”, que contempla várias sagas e sequelas como acontece com “O Senhor dos Anéis”, com “Harry Potter” e com o início do Universo da Marvel.

Por último, na década atual vemos que a indústria está a mudar de modo repentino com a difusão da distribuição por streaming como acontece com a distribuidora e produtora Netfilx a ganhar um território épico no seio da indústria da sétima arte, ganhado neste mesmo ano, 2019, vários Óscares com o filme “Roma”. Esta situação é de constrangimento porque até então o cinema tinha como característica a difusão quase exclusiva em telas de grande dimensão nas salas de cinema e o que está a acontecer é uma descida abismal da audiência a estas salas, dando a mesma prioridade ao uso dos meios de streaming para a visualização dos filmes.

Como finalização do capítulo coloca-se a questão “Como será esta mudança de paradigma e em que é que vai afetar toda a indústria?”



2 O Cinema em Portugal
  
Os primórdios do cinema em Portugal remontam ao ano de 1896, um ano depois da primeira exibição dos irmãos lumiere. O “filme” desenvolvido foi feito pelo empresário do Porto, Aurélio Paz dos Reis, que retratou, meio que como um documentário, a saída dos operários da fábrica da confiança.

No ano de 1907 é feita a primeira produção cinematográfica de ficção realizada por Lino Ferreira com o nome “Rapto de uma atriz”. Neste período foram feitos dois ciclos, o de Lisboa e o do Porto, que compunham duas produtoras a “Portugalia Film” e a “Invicta Film” respetivamente. Estas produtoras foram as maiores e mais importantes no cinema mudo.

Durante a década de vinte estas duas produtoras tomaram o seu expoente onde foram contratados atores e atrizes conhecidos do teatro de Revista, nomeadamente a Beatriz Costa e Vasco Santana. É nesta década que a indústria em Portugal é veemente expressa com a criação da “Tobis Portuguesa” sucursal em Portugal da produtora alemã que contempla o início da produção do cinema com som.
Neste período, em Portugal, foi passado para tela muitos dos clássicos literários como as obras de Eça de Queiroz e, também foi feito um retrato do povo ou de nichos populares como os pescadores da Nazaré. Nos fins da década é deposta a 1ª República e inicia-se a ditadura militar e, posteriormente, dá-se o Estado Novo.

Nas décadas seguintes durante o Estado Novo sob comando do professor António de Oliveira Salazar a produção cinematográfica portuguesa é veemente condicionada sendo que as produções tinham de ser autorizadas pela SPN, Secretariado da propaganda nacional. É neste período que se começa a compreender a importância que a sétima arte tem para o Estado, na medida em que o Estado Novo vê na arte uma forma de manipulação propagandística da sociedade.

Nos anos 50, Portugal vê uma estagnação da indústria onde realizadores tentam adotar vanguardas neorrealistas, mas sucede-se que a visão real das coisas através da captação de imagens não é vista pelo regime de bom agrado pelo regime e, por isso, muitas obras foram censuradas. Todavia, a meio da década, no ano de 1955 é criada a RTP (Rádio Televisão Portuguesa) este novo meio, bem como a difusão do consumo de televisões pela classe alta e média, é dado um grande “boom” na difusão dos clássicos e na mudança dos hábitos de consumo encaminhado o pensamento popular para a ideologia estatal.

Na década seguinte, houve uma continuidade cinematográfica, mas os realizadores queriam adotar uma vanguarda artística e não somente ligados à ideologia do regime. O realizador Ernesto de Sousa, no ano de 1962, apresenta o filme “Dom Roberto” que

é vencedor do festival Cannes. Porém, o cineasta não o pode receber porque fora preso pela PIDE. Apesar de preso ele não perdeu a força e continuou nesta década a criar produções que foram as principais responsáveis pela mudança de paradigma da arte, o “Novo Cinema”, esta vanguarda remanesceu ainda em período salazarista consistindo na procura pela condição humana na sua verdadeira essência.
Ainda nesta década em 1969 é criado o Centro Português do Cinema financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, é neste centro que se dá o grande apoio à nova vanguarda do cinema português, iniciando a sua atividade na década seguinte.

Nos anos 70 houve uma grande diferença entre as duas metades da década, o antes e o depois da revolução de abril. Antes de abril houve uma serie de filmes que se intitulavam por “filmes do desespero” pela sua fragilidade orçamental e pela sua revelia à censura e ao regime. É nesta década que Manoel de Oliveira reinicia a sua longa carreira enquanto cineasta com “O Passado e o Presente”, primeiro filme a ser apoiado pelo CPC. Em 1971 pela Lei nº7/71 é criado o Instituto Português de Cinema, atual ICA (Instituto do Cinema e Audiovisual) no ano 1973. Neste período surge um avanço tecnológico na indústria, antes eram utilizadas câmaras de 16mm e passou a ser utilizada a tecnologia de 35mm.
No pós 25 de abril o cinema militante era a ordem do dia, onde os realizadores e cineastas apostaram na transposição das suas ideologias para a tela, isto muito derivado das liberdades que a população passou a ter que outrora não tinham. Forma criadas várias cooperativas nomeadamente a “cinequanon”, a “cinequipa” e “grupo zero”.

Com a chegada dos anos 80, imbuídos pelo espírito de liberdade, os profissionais do cinema adquirem uma vasta pluralidade de produções. É este período que se denomina pela época de ouro do cinema português. Muitos dos filmes produzidos na altura tinham uma recordação comum, a da repressão estado-novista. De tudo um pouco foi feito, desde filmes de tendência neorrealista (“Passagem ou a meio caminho”) a filmes caricaturais surrealistas (“Verde por fora, vermelho por dentro”).

Na última década do século destacou-se o cineasta Manoel de Oliveira que compôs os seus filmes de forma particularmente própria, este realizador trouxe criticas dos maiores críticos nacionais e internacionais, colocando-o numa posição esplendorosa.
É nesta década que surge uma nova vaga de realizadores, os vindos do conservatório nacional no curso de cinema. Dos nomes sonantes da época destaca-se Joaquim Leitão com os filmes “Adão e Eva” (1995) e “tentação” (1997) e Leonel Vieira “sombra dos abutres” (1997) e “Zona J” (1998).

Com a viragem do século, a televisão domina as audiências pelas telenovelas, e como tal, os realizadores adotam a contratação dos atores da tela doméstica para a grande tela de forma a atraírem mais audiência. Em 2008 Manoel de Oliveira recebe um “Leão de Ouro” no festival de Veneza em homenagem à sua pessoa.

  
3 Influência Social do Cinema

O cinema como vimos no decorrer da História, tanto em Portugal (capitulo 2) como no mundo (capitulo 1), teve um grande impacto social, nomeadamente o medo do Estado em serem exibidos vários filmes que este resolveu com a prisão, tortura e execução de variados cineastas pelo mundo fora ou o Estado que em momentos doutrinou os filmes e censurou à sua maneira para mover as multidões no caminho ideológico dos regimes.
É neste ponto que se compreende que o cinema tem uma posição social muito forte, isto porque, a meu ver, o cinema educa mais facilmente a população que os livros, porque um livro são meras palavras antepostas uma à outra e um filme são imagens reais ou ficcionadas mas que em muitos momentos retratam problemas socias fortes.

É de referir um filme português, o filme “São Jorge” do realizador Marco Martins, este filme retrata em pormenor a fragilidade existente na classe baixa num Portugal pós crise 2008. O filme denota a história de um boxeur que se encontra desempregado e vê-se obrigado a trabalhar para uma empresa de cobranças onde se encontra com outras pessoas que têm uma história de vida de desemprego e pobreza. O filme trata um drama real, o desemprego e a pobreza e põe o espectador a pensar numa realidade que existe no nosso país e nas condições precárias em que muita gente vive, como no Bairro da Jamaica e no Bairro da Bela vista, ambos bairros da margem sul do Tejo.

Este filme foi a prova de que o cinema pode influenciar as pessoas e até o poder político. Numa noticia da TSF lê-se que o Primeiro Ministro António Costa foi à mostra do filme e que ficou bastante sensibilizado ao ver na tela as pessoas desde crianças a mulheres em situação de pobreza desmedida e em condições degradantes. Com isto o PM realojou as pessoas do bairro em apartamentos com boas condições e decretou que até 2022 o bairro da Jamaica seria demolido (vide notícia:  https://www.tsf.pt/politica/interior/o-filme-que-sensibilizou-costa-para-os-problemas-do-bairro-da-jamaica-10354655.html ).  


4 Os apoios do Estado ao Cinema

Em primeiro lugar é importante referir que o direito à cultura é um direito fundamental do Estado português. No seu artigo 73º demonstra que “todos têm direito ... à cultura” no número 1 e no número 3 do mesmo artigo apresenta-se a referência às incumbências que o Estado tem em promover o direito à fruição e criação cultural. O artigo 78º da CRP é o que representa as incumbências concretas do Estado para a fruição e criação cultural.

Com estes artigos constitucionais programáticos, faz sentido que haja legislação que prossiga estes interesses constitucionais (na verdade a falta de legislação nesta matéria representaria uma inconstitucionalidade por omissão). Deste modo, a legislação em vigor que respeita o apoio do Estado à cultura, em particular, do cinema é a Lei nº 55/2012    (https://dre.pt/application/conteudo/174871 ).
Neste diploma contemplam-se os programas de apoio ao cinema (artigo 6º) e o apoio financeiro (artigo 7º) nas várias etapas de produção de um filme.  A partir do artigo 18º expressa-se o apoio concedido para a fase de distribuição dos filmes.

Todos os apoios concedidos pelo Estado à produção cinematográfica são fiscalizados pelo ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) em colaboração com a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), como está expresso no artigo 14º/5 da Lei nº 55/2012.

O que é o ICA?

O Instituto do Cinema e Audiovisual é um instituto Público integrado na Administração Indireta do Estado, dotado de autonomia administrativa e financeira e património próprio, tutelado pelo Secretariado de Estado da Cultura, que tem por missão apoiar o desenvolvimento das atividades cinematográficas e audiovisuais.


Cronologia:
- Este instituto foi criado em 1971 pela Lei 7/71 com o nome IPC (instituto português do cinema) onde se desenvolveu as bases de incentivo à criação cinematográfica bem como à sua internacionalização. Esta Lei teve vigência até à sua revogação pelo decreto-lei nº 350/93.

- Em 1982 foi redigido o seu estatuto orgânico, com a publicação do decreto-lei nº 391/82.

- Em 1990 foi criado o SNA (secretariado nacional do audiovisual)

- Quatro anos seguintes é criado o IPACA, que consiste na fusão do IPC com o SNA sob o decreto-lei nº25/94.


- Em 1998 sob o comando do Ministério da Cultura, é criado o ICAM (Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia), pelo decreto-lei nº408/98

- Em 2004 com a publicação da Lei nº 42/2004 é reestruturado o instituto pela Lei que aprovou a orgânica do Ministério da Cultura

- Em 2007 foi criado o Decreto-lei nº 95/2007 que reformulou o instituto passando-se a chamar de Instituto do Cinema e Audiovisual, IP (ICA, IP.).



5 Bibliografia




Rodrigo Barreiros Ferreira
n. aluno: 140117136

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